Responsabilidade Social: cuidar do mais importante

por Robson Santarém
Diretor Agência Brasil Especializada em Seres Humanos
Vice Presidente ABRH RJ

"Era uma vez um jovem que recebeu do rei a tarefa de levar uma mensagem e alguns diamantes a um outro rei de uma terra distante. Recebeu também o melhor cavalo do reino para levá-lo na jornada.

- Cuida do mais importante e cumprirás a missão! Disse o soberano ao se despedir.

Assim, o jovem preparou o seu alforje, escondeu a mensagem na bainha da calça e colocou as pedras numa bolsa de couro amarrada à cintura, sob as vestes.

Pela manhã, bem cedo, sumiu no horizonte. E não pensava sequer em falhar. Queria que todo o reino soubesse que era um nobre e valente rapaz, pronto para desposar a princesa. Aliás, esse era o seu sonho e parecia que a princesa correspondia às suas esperanças.

Para cumprir rapidamente a sua tarefa, por vezes deixava a estrada e pegava atalhos que sacrificavam sua montaria. Assim, exigia o máximo do animal. Quando parava em uma estalagem, deixava o cavalo ao relento, não lhe aliviava da sela e nem da carga, tampouco se preocupava em dar-lhe de beber ou providenciar alguma ração.

- Assim, meu jovem, acabarás perdendo o animal, disse alguém.
- Não me importo, respondeu ele. Tenho dinheiro. Se este morrer, compro outro. Nenhuma falta fará.

Com o passar dos dias e sob tamanho esforço, o pobre animal não suportando mais os maus tratos, caiu morto na estrada. O jovem simplesmente o amaldiçoou e seguiu o caminho a pé.

Acontece que nesta parte do país havia poucas fazendas e eram muito distantes umas das outras. Passadas algumas horas, ele se deu conta da falta que lhe fazia o animal. Estava exausto e sedento. Já havia deixado pelo caminho toda a tralha, com exceção das pedras, pois lembrava da recomendação do rei: "cuide do mais importante!"

Seu passo se tornou curto e lento. As paradas se tornaram freqüentes e longas. Como sabia que poderia cair a qualquer momento e temendo ser assaltado, escondeu as pedras no salto de sua bota.

Mais tarde caiu exausto no pé da estrada, onde ficou desacordado. Para a sua sorte, uma caravana de mercadores que seguia viagem para o seu reino, o encontrou e cuidou dele.

Ao recobrar os sentidos, encontrou-se de volta em sua cidade. Imediatamente foi ter com o rei para contar o que havia acontecido e com a maior desfaçatez colocou toda a culpa do insucesso nas costas do cavalo "fraco e doente" que recebera.

- Porém, majestade, conforme me recomendaste "cuidar do mais importante", aqui estão as pedras que me confiaste. Devolvo-as a ti, não perdi uma sequer.

O rei as recebeu de suas mãos com tristeza e o despediu, mostrando completa frieza diante dos seus argumentos. Abatido, o jovem deixou o palácio arrasado. Em casa, ao tirar a roupa suja, encontrou na bainha da calça a mensagem do rei, que dizia:

- Ao meu irmão, rei da terra do Norte. O jovem que te envio é candidato a casar com a minha filha. Esta jornada é uma prova. Dei a ele alguns diamantes e um bom cavalo. Recomendei que cuidasse do mais importante. Faz-me, portanto, este grande valor e verifique o estado do cavalo. Se o animal estiver forte e viçoso, saberei que o jovem aprecia a fidelidade e força de quem o auxilia na jornada. Se, porém, perder o animal e apenas guardar as pedras, não será um bom marido nem rei, pois terá olhos apenas para o tesouro do reino e não dará importância à rainha e nem àqueles que o servem.

Esta fábula, de autor desconhecido, nos introduz ao tema da responsabilidade social, que para nós, significa, em síntese: cuidar do mais importante. E cuidar, aqui, adquire o sentido mais profundo do termo, o sentido de uma atitude, que é mais que um ato ou ação isolada, pois tem uma abrangência que envolve o zelo, a atenção, a responsabilidade e o afeto para o outro. Como afirma Leonardo Boff, o cuidado passa a significar o modo de ser do ser humano, revelando de maneira concreta como é o ser humano: um ser de cuidado - a característica singular do ser humano. Sem o cuidado - o descaso - não há vida, sem o cuidado não há ser humano.

Obviamente, esta dimensão também se aplica ao mundo dos negócios, o que faria nos questionar onde e identificar, portanto, o que é o mais importante a ser cuidado.

Antes, porém, será preciso superar a visão reducionista e dualista que transforma tudo em objetos e desconecta todas as coisas, fragmentando tudo e todos e tomar consciência da complexidade - no sentido que lhe aplica Edgar Morin - da tecitura, grande teia, da interconexão e interdependência de todas as coisas, de todos os seres entre si e com o cosmos. Nesta visão, então, o cuidado se amplia, não se restringe a objetos porque a relação entre o ser humano e outro é de igualdade e não de dominação: todos são sujeitos e o mais importante é a vida e o modo de ser, de se relacionar com a vida.

Esta concepção adquire contornos cruciais que se aplicam à gestão das organizações, ao mundo do trabalho, visto que o cuidar do mais importante, significará, nas palavras de Boff ( 1999:102):
Renunciar à vontade de poder que reduz tudo a objetos, desconectados da subjetividade humana. Significa recusar-se a todo despostismo e a toda dominação. Significa impor limites à obsessão pela eficácia a qualquer custo. Significa derrubar a ditadura da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado. Significa organizar o trabalho em sintonia com a natureza, seus ritmos e suas indicações. Significa respeitar a comunhão que todas as coisas entretém entre si e conosco. Significa colocar o interesse coletivo da sociedade, da comunidade biótica e terrenal acima dos interesses exclusivamente humanos. Significa colocar-se junto e ao pé de cada coisa que queremos transformar para que ela não sofra, não seja desenraizada de seu habitat e possa manter as condições de desenvolver-se e co-evoluir junto com seus ecossistemas e com a própria Terra.

A partir deste conceito, vemos que a responsabilidade social não pode ser entendida como uma ação filantrópica, mas, sobretudo e principalmente como atitude, modo de ser estratégico na gestão dos negócios. Se houve um tempo em que o fator decisivo e o diferencial para o sucesso da organização era o capital e em seguida o domínio da tecnologia, hoje, e repetidas vezes ouvimos isso, o grande diferencial é o ser humano e sua capacidade de ser cada vez mais plenamente humano: gerindo a sua vida como sujeito, o seu conhecimento ou capital intelectual, as suas potencialidades e competências, contribuindo assim para o próprio desenvolvimento e o desenvolvimento dos outros e da sociedade.

Assim define o World Business Council for Sustainable Development
Responsabilidade Social Corporativa é o compromisso contínuo nos negócios pelo comportamento ético, pela contribuição ao desenvolvimento econômico e melhoria da qualidade de vida dos empregados, de suas famílias e da comunidade.

O alicerce da responsabilidade social é a ética, e nós poderíamos aqui, resumi-la como a arte de conviver, de se relacionar com o outro, visto que só faz sentido em falar de ética quando se compreende o ser humano como um ser relacional, um ser social e que nos seus relacionamentos é capaz de evoluir e assegurar condições de desenvolvimento e evolução para todos os seres e para a sua casa comum: o planeta. Ao aliar a conduta ética às competências técnicas, as empresas conquistam o respeito, a admiração e preferência dos clientes.

Observamos, ainda, que não deve se tratar apenas de "ações generosas do empresariado" e de alguns voluntários, antes se trata de uma crescente consciência e reivindicação da sociedade e um fenômeno mundial. A cada dia pessoas mais conscientes dos seus direitos e conscientes da destruição dos ecossistemas, da elevação da concentração de renda, da vergonhosa desigualdade social, da dissolução da família e de outras questões relativas ao trabalho e à qualidade de vida, pressionam às organizações, de muitos modos, para que assumam o seu papel de cidadãs. Nesse novo contexto, assumir esse papel é fator decisivo para a sobrevivência no mercado.

Assim afirma Richard Barrett, em seu livro Libertando a Alma da Empresa:
"Estamos enfrentando uma situação em que as crescentes desigualdades e o aumento do desemprego estão criando desintegração social em âmbito mundial e na qual o aumento de consumo dos recursos naturais da Terra e a poluição crescente estão destruindo nosso meio ambiente global. À medida que os século XXI se aproxima, a questão da sobrevivência se torna mais presente. A autocracia corporativa e o atual sistema de valores do mercado livre estão destruindo os sistemas que sustentam a vida do planeta e condenando centenas de milhões de pessoas à pobreza. Estamos vivendo num mundo onde os recursos naturais da Terra estão sendo saqueados por lucros corporativos e onde o lixo tóxico de nossas fábricas está fazendo com que as espécies sejam extintas num ritmo mais veloz que antes. A destruição ambiental e a desintegração social estão dominando as manchetes em todo o mundo."

Está muito claro e é óbvio que a empresa continuará a buscar o lucro como remuneração do capital investido, mas também como conseqüência de suas ações e do nível de satisfação da comunidade com os seus produtos e serviços.

Há uma expectativa de que a empresa seja bem sucedida economicamente, mas há também um grande interesse no sucesso social da empresa por parte dos acionistas, clientes, funcionários, fornecedores, comunidade e governo. O melhor caminho, talvez o único, pelo qual as organizações sobreviverão será cuidando do mais importante, isto é, assumindo inteiramente o que é econômica, social e ambientalmente melhor para o bem comum. Até porque na perspectiva do marketing social, espera-se atrair clientes que venham a dar preferência a empresas que agem de forma socialmente responsável. Porque já não basta ter um bom produto ou um bom serviço, é preciso também cuidar do bem estar dos colaboradores, cuidar do meio ambiente, ter uma boa imagem. E, comprovadamente, os empregados ficam muito mais motivados quando trabalham em empresas das quais se orgulham e muitos preferem trabalhar em empresas socialmente responsáveis.

Isso já aparece como resultado efetivo em estudos e pesquisas como "as melhores empresas para se trabalhar" da Revista Exame, e nos diversos selos como o Ibase, Abrinq, Instituto Ethos, entre outros, para as empresas que efetivamente demonstram uma atuação social, bom relacionamento com os seus empregados, respeito às cláusulas sociais, participação nos lucros e resultados, interação com a comunidade e o meio ambiente visando o seu desenvolvimento.

Esta tendência é tão importante e crescente que a organização Social Accountability International criou a norma SA 8000 para certificar as empresas que estejam norteando a sua política de gestão e responsabilidade social, a partir de nove princípios básicos fundamentados nas convenções da Organização Mundial do Trabalho, na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança. Tais princípios incluem o respeito aos colaboradores no que tange a liberdade de associação, cumprimento de horário, sistema de gestão, segurança e saúde no trabalho, remuneração justa, práticas disciplinares, assim como o compromisso de não contratar trabalho infantil e trabalho forçado.

Quando afirmamos que se deve elevar a responsabilidade social à categoria de estratégia dentro da organização, queremos dizer que todas as ações organizacionais devem estar a ela relacionadas: onde instalar uma fábrica, como e quem contratar, como anunciar o produto ou serviço, como se relacionar com os fornecedores, clientes, órgãos governamentais, etc. queremos dizer também que devemos repensar as ações filantrópicas assistencialistas de "dar o peixe" e através de um novo modelo de gestão e de ações estratégicas criar condições para que todos - como sujeitos ativos - aprendam a pescar. Isso impacta definitivamente o modo de ser do cidadão e da empresa. Por exemplo, podemos encontrar "bem intencionados" que contribuem sistematicamente com entidades, escolas, etc, entretanto não investem no desenvolvimento dos colaboradores.

Não significa, entretanto, que ações pontuais e o assistencialismo tenham que ser eliminados, ao contrário, em uma sociedade onde, lamentavelmente, a miséria está presente, o assistencialismo pode ser a salvação da vida de milhares de pessoas. Como dizia o Betinho: "Quem tem fome, tem pressa". No entanto, se quisermos um outro tipo de sociedade, se pretendemos a transformação social, é fundamental que haja uma mobilização e participação de todos e nas organizações a ação social assuma o caráter estratégico: valorizando a cidadania e resgatando a dignidade humana. Mobilizar as pessoas para que assumam a sua cidadania e mobilizar as instituições para que juntos, governo, empresas e organizações do 3º setor, através de alianças e parcerias estratégicas possam oferecer soluções concretas para os problemas que afligem a sociedade.

Vejamos esta declaração de Phillppe de Woot a esse respeito:
É imperiosa a necessidade, pela própria sobrevivência futura das empresas, de elevarem a sua estratégia social ao mesmo nível da sua estratégia econômica e de a dominarem com tanto método, competência, cálculo econômico e social e espírito empreendedor quando demonstram nos terrenos que lhes são familiares.

Claro está que isso exige um outro modelo de gestão. Se não houver uma gestão participativa, valorização dos colaboradores, uma cultura onde o respeito, a ética, os valores humanos essenciais estejam presentes, toda ação será apenas mais uma ação geradora de dependência, que não compromete e não transforma.

Para grande parte das nossas empresas, desenvolver uma cultura baseada em valores exige uma mudança na consciência organizacional, ou seja, transferir-se de uma perspectiva que está centrada no interesse próprio para uma outra cujo foco seja o bem comum. Essa mudança envolve transformação pessoal e organizacional.

Transformação pessoal porque cada pessoa deve assumir a responsabilidade por suas decisões e a postura ética é, inegavelmente, uma postura individual. Ainda que, possa sofrer influência do meio e da cultura organizacional, mas, de qualquer modo, sempre será uma escolha, uma decisão pessoal e intransferível e uma marca do próprio caráter.

E transformação organizacional porque se não se construir uma cultura sedimentada em valores consistentes, e se buscar o lucro imediato e a qualquer preço, a organização não sobreviverá. E as empresas se perpetuam na medida em que seus fundamentos são valores éticos e são compartilhados por todos na organização. E se, por si, a ética não for condição para um bom negócio, certamente, será para propiciar bons relacionamentos e de longo prazo e estará intrinsecamente vinculada ao caráter / imagem da empresa.

Concluindo, este caráter da empresa se revelará na maneira como os colaboradores são tratados, em quão saudável é o ambiente de trabalho, na transparência da comunicação, na satisfação dos clientes, na relação sinérgica entre os parceiros e no retorno aos acionistas, além do cuidado para com o meio ambiente e apoio ao desenvolvimento da comunidade onde a empresa está inserida.

Assim, como na fábula:
Faz-me, portanto, este grande valor e verifique o estado do cavalo. Se o animal estiver forte e viçoso, saberei que o jovem aprecia a fidelidade e força de quem o auxilia na jornada. Se, porém, perder o animal e apenas guardar as pedras, não será um bom marido nem rei, pois terá olhos apenas para o tesouro do reino e não dará importância à rainha e nem àqueles que o servem.

Ou seja, verifiquem os indicadores que a empresa apresenta, o seu clima, a satisfação dos clientes, o seu balanço social (entendido aqui como um instrumento de avaliação do desempenho da empresa cidadã), etc, pois aqui também se aplica o ensinamento do Mestre: "A árvore boa dá bons frutos, não se colhe figos de espinheiros".

Cuida do mais importante e cumprirás a missão!

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